sábado, 20 de fevereiro de 2016

Entenda A Árvore da Vida, o filme que abalou a fé de Zeca Camargo

Comento a seguir uma autêntica obra de arte cinematográfica, vencedora da Palma de Ouro de Cannes, mas que foi entendida por pouquíssimas pessoas, mesmo dentre a crítica especializada. Não é um filme óbvio, de compreensão imediata, não é um filme "popular" (no pior sentido do termo), mas é certamente uma autêntica obra-prima! 
A Árvore da Vida é muito mais do que um mero entretenimento para se assistir comendo pipoca. Dirigido pelo norte-americano Terrence Malick*, a ideia inicial do filme teria sido digerida por cerca de 40 anos na mente filosófica de Malick antes que o longa-metragem começasse a ser produzido. O resultado foi um filme magistral, com atuações comoventes, fotografia fascinante e uma trilha sonora esplêndida!

*O diretor é graduado em Filosofia por Harvard, exerceu o magistério no Massachussets Institute of Technology e só não se pós-graduou em Oxford por causa de desavenças com seu orientador acadêmico. Malick também é tradutor de uma obra do filósofo existencialista alemão Martin Heidegger.

Creio que jamais se produziu outro filme que fosse tão simplificadamente abrangente quanto A Árvore da Vida. Ele remete à origem do universo, às primeiras formas de vida na Terra e relaciona esses eventos pré-históricos com a história de uma família comum. Através dessa família, Malick desvela realidades de incompreensão, dúvida, morte, raiva, escolha, liberdade, revolta, violência, sentido, perdão e, principalmente, amor. O filme fala de um modo surpreendente da minha própria vida e provavelmente fala bastante da sua também! Porém, há quem tenha visto apenas puro nonsense no longa, entremeado por cenas à primeira vista desconexas, mas que, quando bem compreendidas e encaixadas, fazem surgir um quadro extraordinário feito com peças do nosso quebra-cabeças existencial.
O longa não economiza nas cenas repletas de beleza e simbolismo 
Encontrei tantas interpretações disparatadas e preguiçosas sobre este filme na internet que resolvi escrever eu mesmo sobre o que ele realmente comunica com clareza! E acredito que o leitor pode confiar na minha interpretação não apenas porque o assisti várias vezes (sem ter conseguido entender muita coisa nas duas primeiras, admito), mas também porque me esforcei para captar as alegorias filosóficas e teológicas da narrativa. 

É evidente, contudo, que não pretendo aqui decifrar todos os símbolos imagéticos e dizeres obscuros contidos no longa, até porque muita coisas ali está aberta à interpretação subjetiva. Entretanto, há reflexões objetivas que são ali  suscitadas com clareza, embora não com uma linguagem sempre direta, o que torna sua compreensão menos acessível às massas.
Procurando críticas sobre o filme na internet, deparei-me com uma avaliação pobre e deprimente de uma crítica de cinema da revista Veja no youtube. Ela insinuou que a profundidade de Malick é apenas de aparência e que ele seria "viajandão" e "New Age". Porém, um comentário feito na própria página do vídeo lavou-me a alma: "Se eu parasse para explicar o porquê desse filme ter feito meu dia, minha semana e talvez minha vida, levaria uma eternidade. O fato é que eu compreendi muita coisa do que eu mais desejei e desejo compreender durante esses dias. [...] Essa noite eu durmo pensando que assisti a um filme que fizeram para/por mim e minha família." Sem dúvida, A Árvore da Vida mergulha nos dramas comuns - internos e externos - de muitas famílias!

Atenção, se você nunca viu o filme, recomendamos que o assista uma vez na íntegra, antes de ler este artigo, para melhor degustá-lo, compreendê-lo e maravilhar-se com ele mais tarde. Depois de assistir uma vez, leia este artigo e torne a assistir o filme com o cabedal interpretativo que fornecemos nas linhas a seguir.
Para abordar temas profundamente filosóficos e nada vulgares, Malick se vale da história de uma família bastante comum: os O’Brien, uma típica família estadunidense  de classe média-baixa, ascendência irlandesa – como sugerem o seu sobrenome e confissão religiosa –, três filhos e uma razoável estabilidade econômica. O diretor se vale do ordinário para remeter ao extraordinário; mostra como o natural e imanente é capaz de apontar para o transcendente e o fim último da existência.

O filme segue uma narrativa não-linear que transita principalmente entre três tempos: A perda dramática de um dos filhos do casal O’Brien com a idade de 19 anos (1º tempo), a pré-adolescência dos três filhos do casal num contexto de vida simples e interiorana (2º tempo) e a vida adulta e metropolitana do filho Jack, interpretado na fase adulta por Sean Penn (3º tempo).
Jack é o que mais se aproxima do que ordinariamente chamaríamos de um protagonista. Mas ele divide esse protagonismo com o pai, a mãe e o Agente oculto e metafísico que paira acima da narrativa, que produz os eventos pré-históricos que o filme resgata e com quem os três outros protagonistas dialogam nos momentos mais cruciais. Deste último, entretanto, só vemos alguma aparência em calmas e misteriosas luzes informes que eventualmente aparecem na tela. E suas “falas” só se dão por meio dos acontecimentos, dos cenários naturais e da trajetória dos outros personagens; é um Personagem que é Ato Puro (v. Aristóteles), que já É tudo o que poderia vir a ser e que diz de Si no acontecendo da História.

Sra. O’Brien (a mãe)
Jéssica Chastain interpretando a Sra. O'Brien, esposa do personagem de Brad Pitt
Como, logo no começo do filme, esta personagem recorda uma antiga lição, segundo a qual toda pessoa deve escolher entre o caminho da Natureza e o caminho da Graça¹, alguns interpretaram que o pai da família era o “avatar” da Natureza (por ser mais impulsivo, irascível e durão), e a mãe, o da Graça.

¹A personagem diz que a Natureza “busca apenas sua autossatisfação e outros que também a satisfaçam, gosta de nos assoberbar, de fazer tudo à sua maneira e encontra razões para sentir-se triste, mesmo com o mundo todo a brilhar ao seu redor e o amor a sorrir por toda parte”, enquanto a Graça “aceita ser menosprezada, esquecida, desprezada, aceita insultos e golpes” e os que a seguem “nunca tem um fim infeliz”.

Mas considero esta uma interpretação simplista. A Graça e a Natureza não se personificam no filme. Elas são forças antagônicas que se manifestam, uma ou outra, em cada escolha e em cada ato das personagens separadamente, não nas suas personalidades inteiras! São as escolhas e atitudes individuais dos personagens que nos revelam o caráter da Natureza e o caráter da Graça! A mãe não reflete 100% a Graça. (Quando ela confronta Deus ou quando parte pra cima do marido truculento, por exemplo, ela está seguindo a Natureza!) E o pai tampouco é pura Natureza: cada gesto de amor esponsal e paternal e cada ato de arrependimento do Sr. O’Brien é uma escolha pela Graça!

Logo depois de receber a notícia da morte do filho de 19 anos, a mãe questiona: “Senhor... Por quê?... Onde você estava?...”

É um questionamento que indica crise de fé, incerteza, desconsolo, insegurança!...
E seguem-se imagens de nuvens luminosas e etéreas se movendo, seguidas por cenas da origem do universo e da geração das primeiras formas de vida na Terra. Estas cenas, inseridas bem no meio do drama da Sra. O’Brien, pareceram descontextualizadas, puro absurdo, para muitas espectadores, mas elas não são nem um pouco descabidas ou ilógicas.
As imagens cósmicas são vetores para a metafísica de fundo que permeia o filme
A mãe segue questionando: “Quem somos nós para você?... Responda-me...” enquanto o universo vai se formando magnificamente, galáxias se expandem e lindas luzes entre névoas rubras pulsam como um jovem coração...

Essas imagens são a resposta ao questionamento da mãe e são a explicação da epígrafe que abre o filme: “Onde estavas quando lancei os fundamentos da terra sob os alegres concertos dos astros da manhã, sob as aclamações de todos os filhos de Deus?” (Jó 38, 4;7)

Este trecho é parte da resposta de Deus a Jó, o justo que foi testado pelo sofrimento atroz. A cultura popular o retrata como símbolo de paciência e resignação, mas a narrativa bíblica diz que Jó teve uma reação bastante comum ante os males que se abateram sobre ele: queixou-se contra o seu Criador (Jó 30, 19ss) e quis justificar-se, apresentar-se como vítima de uma injustiça, de um castigo imerecido, “dando assim culpa a Deus” (Jó 32, 3c). É em resposta a essa atitude que o Onisciente lança aquelas perguntas retóricas à criatura que pretende corrigi-Lo.
Jó, o justo provado pela desolação
As personagens de Malick em A Árvore da Vida são, cada qual a seu modo, versões atualizadas de Jó (embora não apenas de Jó, mas também de outras figuras emblemáticas, como veremos mais à frente). 

É como se o Interlocutor invisível da inconsolável Sra. O’Brien lhe dissesse: “Você não é capaz de compreender a razão da morte do seu filho. Você não tem uma visão do quadro maior, não tem o direito de Me julgar! Você, tal como Jó, não estava lá quando Eu criei o universo ou quando dei vida ao barro! Não conhece o meu modo de proceder, não sabe como eu concateno as coisas para que tudo concorra para o bem.” (v. João 9, 1ss e Rm 8, 28)

Voltando às referências filosóficas, essa reflexão que o filme suscita nos remete à Teodiceia de Leibniz, que Malick certamente deve ter lido. Segundo o filósofo alemão, nós tendemos a ver males em excesso no mundo porque temos uma visão parcial e limitada, por não termos a visão divina que contempla o bem que há no quadro completo. Leibniz recorda que muitas cenas de peças de teatro são ruins quando tomadas isoladamente, mas fazem a peça ser boa quando inseridas no todo². 
Assim, sem violar o livre-arbítrio do homem, que é um bem em si, Leibniz considera que a Providência opera para produzir “o melhor dos mundos possíveis”, de modo que o todo resulte em bem, apesar dos males parciais que nos fazem duvidar daquela Providência.

² O mesmo se poderia dizer do próprio filme de Malick, cujas cenas são recortes de acontecimentos que, sozinhos, não fazem sentido, mas que produzem uma obra primorosa da sétima arte no seu conjunto. Ou, pra usar um exemplo real e histórico, a morte do Dr. King, nos EUA, foi em si um mal, mas talvez o movimento pelos direitos civis dos negros não teria ganhando tanto impulso sem este acontecimento e a discriminação teria se estendido por sabe-se lá quando anos mais.


Enquanto o cosmos vai se formando e expandindo maravilhosamente e a Sra. O’Brien lança suas angustiadas indagações ao Céu, a música comovente que ouvimos no filme é uma Lacrimosa de Zbigniew Preisner. Lacrimosa é uma parte do texto da sequência Dies Irae da tradicional Missa de Réquiem, que já teve versões musicalizadas compostas por Mozart e Verdi. Mas, em diversas ocasiões, a palavra "Lacrimosa" também se refere à mais expressiva das mães que já choraram a perda de um rebento saído de suas entranhas: Maria, a Mãe de Cristo.  
Sra. O'Brien e a lacrimosa Virgem das Dores
De todos as vozes humanas da obra, a da mãe parece representar a alma que mais reconhece a Graça, a que mais facilmente consegue captá-La, embora tivesse questionado a Providência ao passar pela dor extrema da perda do filho.


Sr. O'Brien (o pai)
O pai da família O'Brien, interpretado por Brad Pitt
O personagem de Pitt é um homem que ama a sua família, dá carinho aos filhos e se esforça para prover o que necessitam. Mas é também um homem rigoroso, um pai à moda antiga, que exige dos filhos gestos de amor, obediência, submissão e diligente dedicação nas pequenas tarefas que lhes encarrega. 
Assim, sua relação de amor e prova para com os filhos assemelha-se à do Deus bíblico para com os seus eleitos³, exceto pelo fato de que o Sr. O'Brien desconta irascivelmente na família suas frustrações pessoais, geradas provavelmente por ele não ter suas patentes reconhecidas, por não ser rico ou por não ter podido ser músico. 

³ "Demos graças ao Senhor nosso Deus, que nos submete a provações, como fez com nossos pais. Lembrai-vos de tudo o que Deus fez a Abraão, de como provou Isaac, de tudo o que aconteceu a Jacó. Assim como os provou pelo fogo, para lhes experimentar o coração, assim também ele não se está vingando de nós. É antes para advertência que o Senhor açoita os que dele se aproximam." (Judite 8,25-26a.27 - trad. Nova Vulgata)

Após o falecimento de um dos filhos, o vemos arrependido pelo modo grosseiro com que o tratava. Em outro momento, num diálogo interno consigo, reconhece sua soberba: “Eu queria ser amado porque eu era grande. Um grande homem. Mas eu não sou nada.” E se reconcilia com a vida, com os dons que lhe foram dados: “Olhe para a beleza ao nosso redor. Árvores, pássaros. Eu vivia em vergonha. Eu desonrava tudo e não notava a glória. Que homem tolo!”

Mais tarde, é rebaixado na empresa e aceita isso com resignação. Reconhece que foi duro com o filho Jack e lhe diz que não se orgulha disso. O filho diz: “Eu sou tão mal quanto você. Sou mais parecido com você do que com ela.” (O que é verdade. Jack e seu pai parecem tender mais facilmente para a Natureza impulsiva e revolta, enquanto a mãe e os demais filhos parecem se dar mais facilmente com a Graça.) Eles se abraçam, emocionados. É uma linda cena de confissão e reconciliação.
A notável atuação de Pitt nos revela apenas um homem que, assim como tantos outros, procura ser bom, apesar de suas limitações, na medida em que vive o conflito interior de luta entre os impulsos egoístas, insatisfeitos e dominadores da natureza decaída e as sugestões afáveis e restauradoras da Graça.


Jack (o filho mais velho)
Jack é interpretado na adolescência por Hunter McCracker
O filho mais velho da família O'Brien é também o mais indócil, o que mais herdou o temperamento impulsivo do pai e é também o personagem no qual o conflito moral e espiritual é mais intenso, quiçá devido às inquietudes próprias da adolescência.

Numa cena mística que precede o seu nascimento, o vemos, na figura de um garotinho vestido de branco, sendo orientado e conduzido à vida terrena por uma figura angelical, junto com outras alminhas recém-criadas. Logo em seguida, há um quarto inundado - o útero materno, interstício entre a realidade espiritual e o plano material - do qual sai para nascer no mundo, dando encanto aos pais.

O pai lhe ensina a dar os primeiros passinhos e lhe apresenta o mundo. A mãe brinca com ele, cura-lhe os esfolados, ama-o. Quando o primeiro irmãozinho vem, manifestam-se os primeiros sinais de egoísmo: o pequeno Jack sente ciúmes, faz birra e até ameaça atirar um brinquedo na mãe, que segura o irmão nos braços. É a concupiscentia naturae dando as caras.


O pai e a mãe também lhe são sinais e comunicadores do Amor metafísico que resume a trama. Isto nota-se não apenas nos gestos de carinho e cuidado deles, mas também na medida em que lhe dão os primeiros "mandamentos" (a mãe lhe ensinando a não ser agressivo e o pai lhe ensinando a não "cruzar a linha" que separa o seu quintal do do vizinho significam mais do que parece, como tudo no filme), demandam amor e obediência, o que mais tarde gera certa rebeldia no filho mais velho.
Na terceira vez em que o vi, já senti que o filme retratava muito da minha própria adolescência! Estão ali os conflitos internos e externos de qualquer garoto de classe média-baixa, criado numa família amorosa, mas com um pai um tanto rígido. Estão ali os impulsos de agressividade, os ciúmes dos irmãos e até a ideia de seguir de longe a garota bonita da escola sem ter coragem de dizer nada a ela. Acho que este filme fez muitos homens voltarem ao passado e rever a mentalidade e o comportamento que tinham quando passavam pela puberdade... Os impulsos de transgressão, de curiosidade, um misto de medo e antagonismo para com o pai, está tudo ali!...

Ainda bebê, os pais levam Jack à pia batismal. Mais tarde, impressionado pela visão de criminosos condenados, ora: “Ajude-me a não desrespeitar meu pai. Ajuda-me a não atiçar os cachorros... Ajude-me a ser grato por tudo que tenho... Onde você mora?... Ajuda-me a não mentir...Você está me vendo?... Quero saber o que Você é. Quero ver o que Você vê.”
Mas, quando um de seus amigos morre afogado na piscina, Jack questiona a bondade de Deus: “Por que eu deveria ser bom, se você é...?” Vê incoerências entre o discurso e a conduta do pai, detesta suas mentiras, exigências e o jeito durão com que os trata, o que alimenta um senso de revolta em seu interior. A tentação está sempre presente, insinua-se como a serpente do Éden; na estimulação agressiva dos outros moleques (quebrando vidraças e explodindo ninhos de pássaros com bombinhas), nos pensamentos hostis ao pai, nos desafios feitos ao irmão, no protesto de insubmissão que dirige à mãe: "Não quero fazer o que você me manda. Quero fazer o que eu quero."
Jack censura a mãe por ser submissa ao pai. É crescente a sua rebeldia. Abusa da confiança do irmão. Deita água sobre sua pintura e a estraga por pirraça ou, talvez, inveja!

Desafia o irmão mais novo a enfiar um fio metálico no bocal do abajur. O pequeno receia, mas enfim faz o que o irmão pede e diz “Eu confio em você”. E depois põe também o dedo no bocal. Ele parece conservar a inocência perdida por Jack. Depois, diz ao irmão menor para botar o dedo na boca do cano da espingarda de pressão e atira! Machucado, o irmão sai correndo e chora. 

E ouvimos Jack pensar: “O que eu quero fazer, eu não posso. Eu faço o que eu odeio.”... É praticamente uma paráfrase do que escreveu São Paulo Apóstolo em Romanos 7,19. Jack está a conjecturar sobre a nossa inclinação para o mal, herança da culpa original. O antagonismo entre inocência e violência, tanto no interior de Jack quanto na sua relação com o irmão, salta aos olhos!
Cena da tentação do patricídio
“Pai... Por que ele nasceu?...” Debaixo de um carro sem uma das rodas, erguido por um macaco, o pai faz reparos. Jack se aproxima, a tentação o ronda mais uma vez... Basta empurrar a alavanca do macaco e ele ficará livre do pai... Não o mata. Mas pouco depois, em oração, pede a Deus que o mate! Num outro momento, o pai o acaricia com afeto, mas ele não vê, está dormindo... Penso que esta cena tem também um sentido teológico...

Jack, adolescente, passa pela traumática experiência de perder a inocência
O jovem protagonista observa a sua vizinha adulta e casada. Numa ocasião, espera todos saírem, entra furtivamente em sua casa, vai ao quarto, abre a gaveta de roupas íntimas e olha, fascinado, para uma camisola da mulher. Rouba-a! Esconde-a, num primeiro momento, mas depois a joga na correnteza do rio. Sente o peso da culpa... Chora e se envergonha ante o olhar da mãe, mesmo ela não sabendo o que ele fez... "O que foi que eu comecei?... O que foi que eu fiz?..."

Em outra cena, grita com raiva para o pai: “Ela ama só a mim!”, em referência à mãe. O pai não reage. Apenas o olha assustado, como se se questionasse sobre a causa da revolta do filho. Aqui pode parecer inevitável não associar a atitude de Jack ao Complexo de Édipo freudiano. Mas Jack não detesta o pai simplesmente por querer a mãe só para si. Não se trata de uma rivalidade pelo amor da mãe, mas sim de não aceitar as correções, exigências, incoerências e abusos de autoridade do pai.
Tendo machucado e magoado o irmão mais novo, Jack se dá conta da maldade do que fez: “Como faço para voltar?... Onde eles estão?...” “Voltar” talvez seja uma referência ao estado de inocência primevo, perdido nas primeiras transgressões conscientes. Mas não pude chegar a uma conclusão sobre quem ou o quê seriam “eles”.

Depois, tenta animar o irmão, beija-lhe o braço, numa maneira de pedir desculpas com um gesto. Dá-lhe um pedaço de madeira e, como que querendo redimir-se, diz: “Você pode me bater, se quiser”. O irmão ameaça, mas não bate. Então, Jack lhe pede desculpas e o irmão não somente o perdoa, mas manifesta gestos paternais de compreensão. De pé, iluminado pela luz que entra da janela, o irmãozinho põe a mão sobre a cabeça abaixada de Jack. Parece o próprio Cristo perdoando um penitente...

Então, o pequeno arrependido reflete: "O que foi que você me mostrou?... Eu não sabia como nomear você, pecado... Mas eu direi que aquilo era você... Sempre você estava me chamando..." Eu diria que, nesse instante, o protagonista identifica com clareza o gosto amargo do pecado, do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal, com suas propriedades sedutoras e corruptoras, tentadoras e destrutivas.

A partir daí, Jack torna-se mais afável, reaproxima-se do pai, ajuda-o na horta, arranca uma folha estragada de uma verdura, o que também me parece significar algo mais... A imagem da poda de uma planta muitas vezes é símbolo da poda do caráter, da retirada das partes deterioradas do Ego, a purificação, a limpeza da planta interior que possibilita a regeneração!
Sean Penn interpreta Jack na vida adulta
Já adulto, Jack reflete:  “Você falou comigo através dela. [provável referência à mãe] Você falou comigo dos céus. As árvores. Antes mesmo de eu saber que te amava, que acreditava em você. Quando foi que você tocou meu coração pela primeira vez?...”


A Árvore

"Ajudem-se uns aos outros. Amem a todos. Cada folha. Cada feixe de luz. Perdoem." (Voz da Sra. O'Brien, numa cena em que ela aparece brincando com os filhos)
O Gênesis narra que havia duas árvores no jardim do Éden: 

I) A árvore da Vida, que é a árvore da imortalidade, da qual só se pode comer permanecendo inocente. 

E II) A árvore do conhecimento Bem e do Mal, portadora do fruto proibido, que podemos identificar como "pecado".

Como sabemos, Deus expulsa o primeiro casal do Paraíso, tornando-os passíveis de sofrimento e morte, e ordena aos anjos que guardem a Árvore da Vida: uma vez que perdemos a inocência, a pureza e a bondade originais, perdemos o direito à imortalidade.
Numa cena de sua vida adulta, Jack, refletindo sobre o irmão morto precocemente, olha para uma árvore cercada de altos edifícios e pergunta: “Como foi que eu perdi você?...”

O abandono da inocência e opção pela rebeldia é a rejeição da Árvore da Vida e a opção pelo fruto proibido. Mas você não precisa crer no Gênesis para aceitar o dado antropológico de que o homem tende naturalmente para o egoísmo e, não raramente, para o mal. Filosoficamente, essa tendência pode ser chamada de "existencial negativo". 

É o que nos leva a dar mais valor a futilidades inúteis do que às coisas que realmente importam, o que nos inclina a fazer coisas imbecis, muitas vezes perversas, e a ter preguiça de fazer o bem.

Ante essa inclinação, o homem pode simplesmente ceder a ela ou pode acolher a Graça e lutar contra o "existencial negativo" de sua natureza.
Há dois caminhos: o da Natureza e o da Graça. Você tem que escolher qual vai seguir.
O caminho da Natureza é fácil, automático e cômodo. O da Graça supõe o sofrimento, a humildade e a renúncia como instrumentos de purificação. Quem escolhe o caminho da Graça deve aceitar o sofrimento com resignação, com sentido sobrenatural, não com revolta. No filme, pela figura de um padre, Malick nos diz:

“Não podemos ficar no mesmo lugar. Temos que continuar nossa jornada. Temos de encontrar aquilo que é maior que a riqueza, que o destino. Nada, senão isso, pode nos trazer a paz. O corpo do sábio ou do justo está livre de dor? De inquietude? Da deformidade que pode destruir sua beleza ou da fraqueza que pode destruir sua saúde? Você confia em Deus? Jó também estava próximo do Senhor. Seus amigos e seus filhos são a sua segurança? Não há esconderijo em todo o mundo onde os problemas não possam encontrá-lo. Assim como Jó, ninguém pode saber quando o sofrimento baterá à sua porta. No momento em que tudo foi tirado de Jó... ele sabia que fora Deus que o havia feito. Parou então de se preocupar com as coisas efêmeras da vida e passou a procurar aquilo que é eterno...” 
Ilustração cristã sobre os dois caminhos que podemos escolher
Pelos dramas dos personagens, sobretudo do jovem Jack e de seu pai, Malick expõe, nuas e cruas, a nossa soberba, a nossa ingratidão*, a nossa inquietude, a nossa irracional insatisfação, a nossa cegueira...

*O filme faz-nos recordar que tudo o que recebemos nesta vida é dom, é gratuidade amorosa, seja do Criador, seja dos pais, que são também sinais do amor d'Ele. Logo, é tolice e arrogância nossa querer exigir mais do que nos é dado e querer estar sempre isentos de contrariedades! A atitude que Malick parece nos propor é outra... Uma atitude de gratidão, amor, perdão e aceitação das contrariedades!... "Nu saí do ventre de minha mãe, nu voltarei. O Senhor deu, o Senhor tirou: bendito seja o nome do Senhor!" (Jó 1,21)
Se há alguma crítica no filme, é a crítica à resistência da soberba egoísta, que frequentemente pode se tornar violenta e revoltosa, à gratuidade do Bem. Mas, mais do que isso, Malick nos mostra o caminho para termos acesso novamente àquela Árvore perdida!

Penso que este longa tem muito a dizer à nossa geração, uma geração que se considera mais "esclarecida" do que todas as outras precedentes, uma geração que gosta de falar de "humildade" e posar de virtuosa, mas que é incapaz de admitir as próprias culpas, de pedir perdão, de abaixar a cabeça e de se ajoelhar! Uma geração que parece dizer: “Se Deus existe, então Ele tem obrigação de alegrar suas criaturas o tempo todo, de não deixar que sofram, nem um pouquinho que seja, nem para o seu próprio crescimento, nem para a expiação das suas próprias culpas!” O mundo está cheio de gente que quer que Deus as faça felizes aqui e agora, não na Eternidade, não do jeito d'Ele, mas "do meu jeito e já!"... Supõem: "Se Ele não faz todos imediatamente felizes, Ele não é Deus, Ele não existe! É apenas uma ilusão que dá conforto pra alguns ingênuos!"...
Malick nos permite admitir que o sofrimento, uma vez aceito com contrição, redime, faz crescer, traz reconciliação e se transfigura no final em alegria e dom, como na cena paradisíaca em que a mãe O'Brien, que outrora chorava pelo seu rebento morto, declara aos Céus: "Eu o dou a Você. Eu Lhe dou meu filho." 

Notórios autores espirituais cristãos, alguns deles santos, chamaram a própria Cruz, símbolo do martírio de Cristo, de “Árvore da Vida”. Existem inclusive hinos que a chamam assim. Mas por quê?... Bem, talvez porque o “bendito fruto” da árvore da Cruz, que é o próprio Cristo crucificado, nos restituiu a possibilidade (perdida do Éden) de uma Vida Eterna, sem angústias nem dores.


Nesse prisma, o filme resgata as imagens teológicas da Criação e da Redenção para mostrar como estes dois atos divinos de proporções cósmicas se fazem presentes em uma família comum. Ou, ainda, é sobre como a reconciliação salvadora se faz possível pela abertura à Graça e pela aceitação do sofrimento (não num sentido masoquista, mas como algo próprio da natureza humana caída, que precisa sofrer; não em vão, mas para expiar, para reparar pelos males que fazemos e pelo bem que negligenciamos).

Um viciado em crack que quiser se desintoxicar e se libertar do vício, necessariamente vai sofrer! A abstinência pode ser terrível! No entanto, o sofrimento é necessário para o seu tratamento, reabilitação e cura, como em quase todos os casos de doenças e vícios humanos. É por isso que médicos e terapeutas às vezes nos fazem sofrer e é por isso que Deus muitas vezes permite que soframos neste mundo de misérias.
Uma lei que vale para o corpo, e mais ainda para o espírito.
Sem padecimento, dificilmente alcança-se uma cura ou uma evolução pessoal. “No pain, no gain!” (“Sem dor, sem ganho!”), dizem os treinadores e praticantes de exercícios físicos. O mesmo vale para o nosso eu mais profundo, o eu espiritual. O sofrimento faz-se inevitável se quisermos sanar e desenvolver o cerne mais profundo da nossa natureza.

Embora muitos falem de “várias interpretações possíveis”, fica patente que este filme retrata como a nossa natureza viciada, além de repudiar ser contrariada, fomenta o orgulho, a violência, a rebeldia. Enquanto isso, a Graça, por vias insondáveis, nos suscita o arrependimento e nos impele a uma iniciativa de humildade, que tem, por fim, a plena reconciliação do homem (não só com o seu pequeno círculo familiar/social, mas também com o macrocosmo e com o Autor de ambos) e sua realização plena, sua felicidade última.


Zeca Camargo
A essa altura, o leitor já deve estar se perguntando: "Mas o que o Zeca Camargo, que você invocou no título, tem a ver com tudo isso?..." Bem, no ano em que o filme chegou aos cinemas, o famoso jornalista e apresentador escreveu um artigo sobre o longa intitulado "O Cômico e o Cósmico" em seu blog no portal G1. E me chamaram a atenção as suas seguintes palavras: 

"O filme mexeu tanto comigo que me fez reconsiderar até mesmo minha posição com relação à fé. Ela é um pouco complexa (e indefinida) demais para eu poder dividi-la hoje aqui com você, mas, apenas para continuar a discussão, digamos que eu já tinha resolvido que fé era uma coisa que não faria parte da minha vida. Mas aí chega Malick e me reapresenta a Graça Divina como o único amor que de fato pode nos salvar – como não me sentir cutucado com isso? As perguntas que Jack – e eventualmente seu pai e sua mãe – colocam ao Criador são longe de ser tolas, ou simplesmente retóricas. São pontuais e indispensáveis para nos fazer pensar na cena que estamos vendo – e nos provocar por muito tempo depois que saímos do cinema."
Um filme que aponta para o Alto e potencializa nossa percepção do influxo da Graça
A quem queira objetar que a "fé" do Zeca chacoalhada pela obra de Malick era, na verdade, uma "não-fé", convido à leitura desta obra www.bit.ly/1UeVz0Y e encerro este artigo com um trecho das cenas finais do filme To The Wonder ("Amor Pleno", no Brasil), também dirigido por Malick, e dois bônus literários: um poema de Adélia Prado e um trecho do romance Os Irmãos Karamazov, de Dostoiévski, que casam perfeitamente com A Árvore da Vida.

Cenas de espiritualidade no filme Amor Pleno: 
https://www.youtube.com/watch?v=cPnFThIH7Qo



Jó consolado  
(Adélia Prado)

Desperta, corpo cansado;
louva com tua boca a cicatriz perfeita,
o fígado autolimpante,
a excelsa vida.
Louva com tua língua de argila,
coisa miserável e eterna,
louva, sangue impuro e arrogante,
sabes que te amo; louva, portanto.
A sorte que te espera
paga toda vergonha,
toda dor de ser homem.

Só está apto a acolher a Graça e comer do fruto da Árvore da Vida
quem estiver apto a passar pela provação de Jó

Excerto de "Os Irmãos Karamazov", de Fiódor Dostoiévski, Parte II, Livro Sexto, Capítulo I, b:
“Havia na terra de Hus um varão justo e piedoso, que possuía muitas riquezas, tanto em camelos como em ovelhas e jumentos. Os seu filhos se divertiam, e ele, que os amava muito, rogava a Deus pelos filhos, temendo que tivessem pecado ao divertir-se. E eis que o diabo se aproxima de Deus, juntamente com os filhos de Deus, e diz ao Senhor que ele percorrera toda a terra, por cima e por baixo. Viste o Meu servo Jó?, pergunta-lhe Deus, com muitos louvores ao seu santo servo. 

O diabo sorriu: Entrega-me o teu servo e verás que ele murmurará contra ti e maldirá o teu nome. Então, Deus entregou ao demônio o seu justo, que ele tanto amava. O diabo feriu os seus filhos e o seu gado e destruiu as suas riquezas com a rapidez do raio. Jó rasgou as suas vestes e atirou-se ao solo exclamando: Saí nu do ventre de minha mãe e nu voltarei à terra. Deus me deu e Deus me tira tudo. Bendito seja o nome do Senhor, agora e sempre, pelos séculos dos séculos!’ [...]
Quanta grandeza e que mistério inconcebível! Ouvi muitas vezes os detratores dizerem: ‘Como pôde o Senhor entregar ao demônio o mais amado de seus santos, tirar-lhe os filhos e enchê-lo de chagas, a tal ponto que ele tirava o pus com o caco de uma telha? E tudo isso para quê? Apenas para se vangloriar diante de Satanás: Vê o que é capaz de suportar o meu santo por amor a Mim!’ 

– Mas é isso que constitui a grandeza do drama, esse encontro da efêmera aparência terrestre com a verdade eterna. Aqui o Criador, aprovando a sua obra, como nos primeiros dias da criação, olha para Jó e novamente se regozija. E Jó, louvando o Senhor, serve não só a ele, mas a toda a sua criação... [...]
É como a representação do mundo do homem e de seu caráter, tudo explicado para os séculos dos séculos. E quantos mistérios resolvidos! Deus restabelece Jó em sua posição primitiva e dá-lhe novas riquezas. Passam muitos anos e eis que ele tem novos filhos, a quem dedica seu amor. Senhor! 

Como podia ele amar esses novos filhos, depois de haver perdido os outros? A lembrança dos primeiros permite que ele seja completamente feliz, por mais que os novos filhos lhe sejam caros? Mas isso é possível, sim: a antiga dor transforma-se misteriosamente e pouco a pouco numa doce e comovida alegria; a ardência do sangue juvenil é substituída por uma serena velhice. Bendigo diariamente o erguer do sol, e, como outrora, o meu coração canta um hino em seu louvor, porém amo muito mais o crepúsculo, os seus longos raios oblíquos e, com eles, as doces e ternas recordações, as imagens queridas e de toda a minha longa vida bem-aventurada – tudo isso dominado pela verdade de Deus, que apazigua, reconcilia e absolve.”

sábado, 30 de janeiro de 2016

O vácuo moral e espiritual da Europa convida ao terrorismo

Publicamos abaixo uma tradução livre do artigo da jornalista dinamarquesa Iben Thranholm, publicado ainda antes dos abusos sexuais cometidos por imigrantes na Alemanha; mais precisamente no dia 23 de novembro de 2015.
Iben Thranholm 

Estes dias a mídia está transbordando com comentários e análises dos ataques terroristas da última sexta em Paris. Analisar tais ocorrências pelo ângulo da religião é algo constantemente ignorado ou rejeitado.

Essa é uma omissão curiosa, uma vez que os próprios terroristas emitiram declarações que indicam que a religião foi a motivação deles.

A declaração na qual o Estado Islâmico aceita a responsabilidade pelos ataques em Paris é feita em nome de Allah e os assassinatos são referidos como "uma batalha abençoada cujo sucesso foi possibilitado por Allah". Ela afirma que Paris foi tomada como alvo porque é "uma capital de prostituição e vício" e "a vanguarda da cruz na Europa".
Terrorista do grupo muçulmano jihadista Estado Islâmico
O Estado Islâmico frequentemente se refere aos parisienses como "cruzados" - o público do Bataclan, contudo, é classificado como "pagãos reunidos para um show de prostituição e vício." A afirmação encerra com uma ameaça terrorista de atacar aqueles que "ousarem amaldiçoar o Profeta e se vangloriarem de suas guerras contra o Islã".

Um outro aspecto dos ataques revela com clareza cada vez maior seu significado simbólico. Eles foram cometidos numa sexta-feira, dia sagrado para os muçulmanos. As vítimas do Bataclan estavam ouvindo música, o que é vetado no Islã fundamentalista, e os primeiros alvos que foram alvejados estavam no bar consumindo bebidas alcoólicas. O simbolismo ganhou uma nova dimensão quando os perpetradores do ataque começaram a atirar no público que ouvia a banda de rock Eagles of Death Metal tocar sua popular música Kiss the Devil ("Beije o Demônio").
Interior da boate Bataclan
Uma série de imagens tomadas momentos antes do massacre começar mostram pessoas no show fazendo o sinal usado para cultuar o demônio: mão fechada com os dedos indicador e mínimo erguidos em preparação para cantar a sinistra letra da música:

"Quem irá amar o Demônio?
Quem cantará sua música?
Quem irá amar o Demônio e cantar sua música?
Eu irei amar o Demônio
Eu cantarei sua música
Eu irei amar o Demônio e sua música"

Que diabólica ironia: o público no show canta ao demônio e então é massacrado a sangue frio por jihadistas que alegam estarem a serviço de Allah para aniquilar pagãos que celebram e invocam o Demônio.

Os parisienses parecem desprovidos de qualquer senso da realidade espiritual que eles estão atraindo. Logo suas invocações foram ouvidas e respondidas.

Que cena de partir o coração. Servos de Allah e foliões pagãos compondo um diabólico sacrifício de sangue.

A despeito da constante e ambígua referência do próprio Estado Islâmico a Allah como motivação para seus atos terroristas, os políticos e a grande mídia teimosamente se recusam a reconhecer o papel da religião em tais atos, sequer a mencionam.
"Nenhuma democracia. Nós queremos apenas o Islã!"
Em vez disso, eles contorcem sua retórica em figuras fantasiosas de irrealidade, sublinhando que o mundo não está em guerra contra o Islã, apoiados por alegações de que o ISIS não é islâmico. [...]  

Quando François Hollande discursou no Congresso em Versailles logo após os ataques, ele evitou dizer qualquer palavra que pudesse ligar as atrocidades ao Islã. Obama também tem insistido que o Ocidente não está em guerra com o Islã.

A religião tem sido, assim, um total tabu na narrativa da luta contra ao terror. Há duas razões pra isso. Uma é o politicamente correto: a ideologia do secularismo propõe a doutrina de que a religião é irrelevante, uma vez que ela não está entre os ideais do Iluminismo e deve portanto ser ignorada, exceto na medida em que puder ser feita objeto de desprezo e escárnio. A outra razão, mais significativa que a anterior, é que há pouca sensibilidade à religião e espiritualidade na Europa - e nenhuma entre a elite política.

Esta é a raiz do problema.

Independentemente da forma como se escolhe interpretar o desejo dos jihadistas de atingir "pagãos reunidos num show de prostituição e vício" e as invocações do demônio feitas pelo público, isso fornece uma imagem forte, ou talvez um sinal, do que cria e nutre o terrorismo. A força motriz é espiritual e não política.

O declínio do Cristianismo no Ocidente criou um vácuo moral e espiritual de proporções colossais. É este vácuo que impulsiona e alimenta o islamismo.

O Ocidente simplesmente não entende mais a espiritualidade e perdeu contato com os seus fundamentos espirituais ao abandonar o cristianismo, agora banido também do Tratado da União Europeia. Vários países tem removido símbolos cristãos dos espaços públicos. Ao remover Deus, eles têm criado um espaço vazio para o mal preencher. Este fator combinado com as políticas externas moralmente falidas tem tornado "aceitáveis" a matança e decapitação de cristãos, o que equivale a uma destruição das próprias fundações espirituais da Europa para alcançar ganhos geopolíticos, o último dos quais é a mudança de regime na Síria pela remoção do presidente democraticamente eleito.

O monstro criado pela rejeição do cristianismo está ganhando poder, como o terrorismo que tem crescido a partir de uma cultura descristianizada. Secularismo e islamismo são duas faces da mesma espiritualidade destrutiva, dois parasitas alimentando um ao outro. Enquanto a justiça e a misericórdia combinam-se nas virtudes que brotam do cristianismo, a destrutiva justiça do islamismo se mostra notoriamente demoníaca. Não há mais um contrapeso espiritual de graça, perdão e caridade, apenas um contraponto político, o qual é claramente insuficiente. 

O secularismo, o relativismo de valores, o materialismo e a democracia como uma nova religião (idolatria desprovida de uma divindade) constantemente provam a sua débil inadequação quando encaram o islamismo. As ideologias pós-cristãs não possuem um centro de força espiritual - vigilância e aparelhagem militar é só o que elas oferecem. É precismo mais do que isso para vencer uma guerra. É preciso força moral. O Ocidente tem perdido a sua força moral, o que fica amplamente evidente na sua política externa pelo apoio aos assim chamados grupos terroristas moderados, que mostram pouca moderação quando se trata de decapitações e de literalmente comer os corações de suas vítimas.
Imagem compartilhada nas redes sociais
A orgia de morte no Bataclan expõe com soberba clareza o que acontece quando um povo volta suas costas ao cristianismo, invoca forças diabólicas pretendendo usá-las para seus próprios interesses e faz a colheita amarga de uma realidade que deveria ter previsto.

A menos que a Europa reconheça a religião como pivô do terrorismo, irá perecer sem pistas sobre a verdadeira identidade de seu inimigo. A Europa permanecerá fatalmente débil. Um reavivamento espiritual é a única esperança para a Europa se fortalecer e se pôr de pé ante o Estado Islâmico. O vácuo espiritual é também um vácuo de valores verdadeiros: patriotismo, honra, virtudes viris, valores masculinos como valentia, coragem, disposição ao auto-sacrifício e uma fé forte em um Deus bom e amoroso. Tudo isso é urgentemente necessário se a Europa quiser derrotar o terrorismo e o islamismo radical.

[...]

A Europa prevaleceu contra o Islã muitas vezes ao longo da história. Foi assim na Espanha, na França, na Áustria, na Batalha de Lepanto em 1571, e todas essas vitórias foram conseguidas num tempo em que o cristianismo era uma fundação explícita e reconhecida. Agora, pela primeira vez na história, a Europa se põe a encarar o Islã numa batalha mortal sem a rocha do cristianismo para prover uma base de sustentação, sem identificar o inimigo e sem admitir que está em guerra. Sem bússola para mostrar onde se está, para onde deve ir ou porquê.

Se a Europa quer vencer essa batalha ela deve redescobrir o cristianismo. O Ministro do Exterior da França e fundador da da UE Robert Schumann uma vez fez esta declaração: "A Europa não viverá e não se salvará exceto na medida em que tiver consciência de si mesma e de suas responsabilidades, quando retornar aos princípios cristãos da fraternidade e da solidariedade."

Se a Europa persistir em rejeitar o cristianismo, deve abandonar toda esperança de algum dia ser capaz de fazer frente ao Islã e ao terrorismo islâmico.

Fonte: https://www.rt.com/op-edge/323118-europes-moral-spiritual-vacuum-terrorism/ 

sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

Porrada nos imigrantes resolve alguma coisa?...

Tenho visto, nas redes sociais, diversas pessoas elogiando certas gangues da Alemanha que estariam espancando imigrantes islâmicos a fim de se vingarem pelos assédios sexuais cometidos contra mulheres alemãs na virada do ano. Gostaria de fazê-los perceber que essa atitude não é nem um pouco inteligente! Ela mina a credibilidade dos opositores da imigração, reforça as acusações de "xenofobia" da esquerda multiculturalista, incentiva a formação de facções neonazistas e, o pior, corre-se um grande risco de acabar espancando ou até matando algum imigrante inocente que não tenha tido nada a ver com os abusos em Colônia! 
Foto de supostos membros das gangues
"Extrema-direita xenófoba": é com rótulos assim que a esquerda vai capitalizar politicamente essa história toda! As toupeiras que estão espancando imigrantes estão dando munição, na forma de capital político, para a esquerda multiculturalista!

O poder de meia dúzia de grupos de caça-mouros é uma mera flatulência diante do poder do Estado. Ao atacar imigrantes, reforça-se o discurso anti-xenofóbico da esquerda, que domina o Estado, dando a ela mais poder ainda! Logo, é muito mais inteligente criticar a esquerda sem trégua, responsabilizando-a pelos crimes cometidos pelos imigrantes, até conseguir arrancar dela o Estado e, aí sim, barrar a imigração de criminosos! É assim que se faz política: conquistando hegemonia e acionando os mecanismos de poder, não juntando grupos de skinheads para espancar gente que você nem sabe se é culpada ou não!

Por caridade, aprendam uma coisa: sem conquistar hegemonia na opinião pública e sem controlar o Estado não se pode fazer NADA de efetivo por um país em decadência! Ou se conquista a opinião da massa e o poder do Estado ou não se tem nada! Estou dizendo apenas o que é preciso fazer para conter a imigração de criminosos e extraditar os que já entraram. Para cada porrada que um skinhead der num imigrante criminoso, outros vinte vão atravessar as fronteiras e talvez cometer crimes ainda piores, com a anuência de uma esquerda política ainda mais fortalecida!

Para ilustrar a coisa, imagine o seguinte: Eu sou um menino de sete anos de idade, caçula de uma família de três irmãos. Meus irmãos mais velhos, que me detestam e são mais fortes do que eu, adoram colocar formigas lava-pés na minha cama durante a noite para me atormentar. Eles se divertem muito com isso e, se eu não tomar uma providência, eles vão continuar fazendo isso. 

Assim, as opções que eu tenho, se não quiser ser picado por formigas toda noite, são: 

1) Interromper o meu sono todas as noites, levantar-me e acender a luz para matar as formigas. 

2) Tentar "dar uma boa lição" nos meus irmãos, o que dificilmente seria uma boa ideia, já que eles são maiores e mais fortes do que eu. 

3) Sensibilizar o meu pai e a minha mãe para que eles possam punir os meus irmãos e proibi-los de botar formigas no meu quarto novamente. 

Qual opção te parece mais inteligente?

Quem é quem: Eu (o menino caçula) sou a parcela sensata da população e a direita política, que é contra a imigração indiscriminada. Os meus irmãos mais velhos são a esquerda política, que é mais forte porque detém o poder estatal, midiático, etc. As formigas são os imigrantes islâmicos que não sabem se comportar com civilidade. O meu pai é o Estado e a minha mãe é a opinião pública. 

Quem é a favor dos caça-mouros está propondo passar as noites matando as formigas, que vão continuar sendo colocadas na cama. E eu estou dizendo que é melhor resolver a parada conquistando e acionando os verdadeiros poderes da casa para dar solução definitiva e justa ao problema! Fazendo isso, as formigas permanecerão em seus formigueiros, eu ficarei tranquilo em minha cama e os pulhas dos meus irmãos terão o castigo que merecem. Simples assim.

terça-feira, 12 de janeiro de 2016

O Papa e seus fantasmas rigoristas sem misericórdia

Num mundo onde tantos homens, até mesmo no clero, estão se lixando para o que a Tradição cristã ensina como "certo" e "verdadeiro", não consigo entender essa insistência do Papa Francisco em condenar a afirmação da ortodoxia, como se ela fosse a antípoda da misericórdia cristã e como se estivesse excluindo milhões e milhões de pessoas, que só não estariam se aproximando em massa de Jesus e da Igreja por causa de algum espectro ortodoxo, autoritário e invisível que as enxota das paróquias por qualquer mínimo deslize... 
Por que Francisco insiste tanto no que as pessoas estão cansadas de ouvir e omite o que era preciso dizer?
Este Papa parece avaliar a realidade das paróquias a partir do que gente insana como Frei Betto e Leonardo Boff dizem a ele, e não a partir da realidade mesma!... Francisco denuncia fantasmas tradicionalistas autoritários, quando o que vemos é um excesso de relativismo e de permissivismo; esculacha os cães-pastores (bispos e padres zelosos pela salus animarum) que querem proteger o rebanho das influências corruptoras do mundo e parece pouco interessado em confrontar os verdadeiros lobos!...

Essa postura de ataque constante a um suposto rigorismo vigente, como nós sabemos, reforça o discurso dos adversários da Fé e enfraquece a coesão interna da Igreja, uma vez que se cria um clima interno de patrulhamento anti-rigorista no qual qualquer afirmação da Fé católica tradicional, por mais despretensiosa que seja, pode ser rotulada como uma traição imperdoável ao princípio da "misericórdia"! Bons seminaristas tem sido expulsos dos seminários por essa dinâmica de patrulha "misericordiosa" inspirada nos discursos do Papa!


Nunca tivemos tantas dioceses, paróquias e congregações tão "liberais, plurais e inclusivas" e, exatamente por isso, vemos que pouquíssimas pessoas nelas que estão interessadas em levar uma vida cristã-católica de facto!...
Receber elogios de grupos que profanam símbolos cristãos e querem ensinar sodomia a crianças...
Como isso pode ser bom?...
Há legiões de ateus e pagãos que, mesmo elogiando os discursos progressistas do atual Papa, permanecem ateus e pagãos e não demonstram a menor intenção de se tornarem católicos um dia! Aliás, parece até que ser ou não ser católico já não importa mais...
A Dilma bem poderia usar esse conceito de "ateísmo cristão" em um de seus discursos...
Comentários sobre o Papa Francisco numa página ateísta
No pontificado anterior, quando Bento XVI enfrentava os dogmas politicamente corretos do mundo, afirmando e explicando pontos fundamentais da Fé cristã de sempre, a Igreja cresceu e se fortaleceu! Mostrou que não tinha medo de contrariar o mundo e afirmar a verdade e, com isso, as pessoas realmente interessadas em ser membros plenos da Igreja corresponderam bem, as vocações aumentaram, a fé das pessoas se robusteceu, a espiritualidade cresceu e até os donativos feitos à Santa Sé se tornaram mais generosos!

Hoje o que vemos é um monte de gente nada católica elogiando os discursos do Papa (gente que está se lixando para a missão evangelizadora da Igreja) e muitos fiéis de verdade desanimados por não terem o respaldo do pontífice para afirmarem a Verdade!... A confusão e a incerteza da crise pós-conciliar parecem estar de volta!...

Rezemos pelo Papa, pela Igreja, pela conversão dos que não estão na Igreja e por aqueles que tem fé vacilante!...

segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

Trabalhe para se tornar rico... no que realmente importa!

Fico impressionado de ver como as pessoas se deslumbram facilmente com bens de luxo não tanto pela estética deles em si, que muitas vezes é de fato admirável, mas pelo mero fato de serem ícones de riqueza material e do que chamam de "alto padrão de vida". Parecem admirar não a beleza das mansões, carros, iates, condomínios e jardins residenciais, mas o dinheiro e o "padrão de vida" de quem os possui. 
O que te encanta mais, a beleza do que a arte humana é capaz de fazer ou a riqueza dos proprietários?
Ah, se soubessem que o dinheiro e a profusão de bens, nas coisas que realmente importam, frequentemente muito mais atrapalham do que ajudam!... Se refletissem mais no que ensina as Sagradas Escrituras sobre o perigo da ambição ou, pelo menos, no que ensina o mito grego do rei Midas!...
Diz o mito que o ambicioso Midas desejou que tudo o que tocasse virasse ouro...
e, tendo adquirido este poder, já não mais podia comer nem beber nada nem tocar ninguém.
Longe de mim querer parecer um socialistóide desses que condenam até a riqueza adquirida com honestidade e equilíbrio, mas o fato é que temos visto pessoas demais preocupadas em acumular bens para o corpo (ou seria para o ego?) e que estão pouco ou nada interessadas nos bens imperecíveis do espírito! E isso com frequência as torna mais infelizes do que muitos pobres!
Há ricos tão imersos na faina de gerenciar e aumentar seu patrimônio que perdem a alegria das coisas simples.
"Doce é o sono dos trabalhador, tenha ele pouco ou muito para comer; mas a abundância do rico o impede de dormir. Vi uma dolorosa miséria debaixo do sol: as riquezas que um possuidor guarda para sua desgraça." (Ecl 5,11s)

"Pois, de que vale ao homem ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma?" (Mc 8,36) 
Memento Mori. Não importa a riqueza que você tenha acumulado.
Antes do que você pensa, o seu corpo terá perecido e tudo o que importará é o que você fez pela sua alma.
Ah, se cada pessoa soubesse qual é o "padrão de vida" que realmente fará toda a diferença no final das contas!... 

"Buscai, em primeiro lugar, o Reino de Deus e a sua justiça, e todas as coisas vos serão acrescentadas." (Mt 6,33) 

"Ajuntai para vós tesouros no Céu..." (Mt 6,20)

quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

A culpa das elites culturais na degeneração social

No livro "Nossa Cultura... ou o que restou dela: 26 ensaios sobre a degradação dos valores", Theodore Dalrymple escreveu algumas coisas muito interessante que ajudam a explicar as causas da crise moral e cultural que assola o Ocidente. Leia os trechos abaixo e reflita:

Edição brasileira de 2015 da É Realizações
"De forma explícita, alguns intelectuais abraçaram o barbarismo. [...] Quebrar um tabu ou transgredi-lo se tornaram termos que gozam  da mais alta estima no vocabulário dos críticos modernos, ignorando-se o que foi transgredido ou qual foi o tabu quebrado." (p. 20)

"...uma atitude de hostilidade contra as regras sociais tradicionais é aquilo que laureia o intelectual moderno aos olhos de seus semelhantes. E esse prestígio que os intelectuais conferem ao antinomianismo é rapidamente transferido aos não intelectuais. Mais cedo ou mais tarde, aquilo que é tido como bom para o boêmio da elite também será [considerado] bom para o trabalhador desqualificado, para o desempregado e para aquele que recebe ajuda do governo - exatamente aquelas pessoas que mais precisam de limites, a fim de tornar suas vidas viáveis para que possam realmente crescer e prosperar. O resultado é uma imundície moral, espiritual e emocional, engendrando prazeres passageiros e sofrimentos prolongados. " (p. 21)

"Os intelectuais propuseram a ideia de que o homem precisava se libertar das correntes da convenção social e do autocontrole ["não se reprima!", nos ensinaram], e o governo, livre de constrangimentos, passaria leis que promovessem comportamentos desimpedidos e criaria um sistema de bem-estar social que protegesse as pessoas das consequências econômicas dessa política. Aprendi que quando as barreiras que seguram o mal são derrubadas, o mal floresce..." (p. 30-31)

"Houve uma grande marcha que não devastou apenas as instituições, mas sobretudo as mentes dos jovens. Os jovens querem louvar a si mesmos, descrevem a si mesmos como 'tolerantes'. Para eles, a forma mais alta de moralidade é a amoralidade. Existe uma aliança ímpia entre a esquerda, que acredita que o homem é dotado de direitos sem deveres, e os libertários da direita, os quais acreditam que a escolha do consumidor é a resposta para todas as questões..." (p. 38)

Capa da edição original em língua inglesa
"...meus pacientes, com raras exceções, conseguem enxergar a verdade naquilo que lhes falo: que eles não estão deprimidos; estão infelizes - e são infelizes porque escolheram viver de uma forma que não deveriam viver, na qual é impossível ser feliz. Sem, exceção, dizem que não gostariam que seus filhos vivessem da forma como eles próprios vivem. No entanto, as pressões sociais, econômicas e ideológicas - e, acima de tudo, o [mau] exemplo dos pais - tornam bastante provável que as escolhas das crianças sejam tão ruins quanto as de seus pais. Fundamentalmente, a covardia moral das elites intelectuais e políticas é responsável pelo permanente desastre social que tomou conta da Grã-Bretanha, um desastre cujas plenas consequências sociais e econômicas ainda serão conhecidas. 
Uma aguda crise econômica traria à tona o quanto as políticas dos sucessivos governos, todos orientados para o libertinismo, atomizaram a sociedade britânica. Isso fez com que toda a solidariedade social dentro das famílias e das comunidades, tão protetoras em tempos de dificuldades, fosse destruída. As elites não conseguem sequer reconhecer o que aconteceu, muito embora seja óbvio, uma vez que tal reconhecimento solicitaria admitir a pretérita irresponsabilidade em relação à questão, e isso seria muito incômodo para elas. Melhor que milhões vivam desgraçadamente e na imundície do que as elites se sentirem mal sobre si mesmas..." (p. 39)


Comento.
Penso que Dalrymple tem muitíssima razão no que diz. Por outro lado, também é verdade que não são só as elites intelectuais acadêmicas que tem culpa pela degeneração cultural e moral das massas. Para isso, elas contaram com a inegável contribuição perversa dos artistas, sobretudo os diretores, atores e atrizes de novelas, filmes e séries, bem como os cantores pop e figuras da mídia de massas em geral! 

Além dos intelectuais e da classe artística, o apodrecimento moral da sociedade também foi facilitado por diversas lideranças políticas e sociais corrompidas, pelo clero modernista (que deixou de instruir e exortar os fiéis como fazia antigamente para não parecer antiquado ou politicamente incorreto) e, claro, pelos próprios pais e mães de família irresponsáveis! Os resultados estão aí: criminalidade crescendo, inteligência média caindo, vícios de todo tipo se disseminando, meninas engravidando (e abortando) cada vez mais cedo, o culto à ignorância se alastrando, hedonismo e relativismo moral se impondo, corrupção se tornando normal, egoísmo e comportamentos antissociais aumentando!... 

O que é ainda mais inaceitável é que, mesmo depois de causarem tanto estrago, as elites "progressistas", acadêmicas, midiáticas, políticas, etc., continuem inatingíveis, posando de "esclarecidas" em seus postos de poder e influência de onde seguem esguichando seu lixo ideológico impunemente pra todo lado!